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Arquivo de abril, 2008

30/04/2008 - 23:59

Um Milão, Meio Milão

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Embora tenha acompanhado tudo à distância (viva a tecnologia!) e abastecido este blog com uma ou outra pílula fresquinha made in Itália, não me sinto lá com muita moral para palpitar sobre aquilo que não vi ao vivo e em cores – no ano que vem, se o fechamento deixar, faço o link direto com vocês!

Como a proposta deste espaço é “antenar”, além de escolher uma poltrona “tudibão” para abrir os trabalhos do dia (a fofa Heaven, de Tokujin Yoshioka, inspirada num origami), convidei três personas de diferentes tribos, gente amiga que sabe tudo de design, para fazer o “disse-que-disse” da edição 2008 do Salão do Móvel. Cada um na sua área, mas todos decanos de um mesmo segmento (vide os perfis coletados especialmente para este post), eles dividem um pouquinho das suas impressões com a gente.

Quase todo mundo concorda com a superexposição de alguns nomes (numa lista de blockbusters encabeçada pelo onipresente Philippe Starck e seguida por Karim Rashid, Zaha Hadid e Ron Arad), e com a crise econômica mundial – um dos assuntos mais comentados nos bastidores. Mas, como disse Fabrizio Rollo, há também outra crise: uma incompatibilidade entre a expectativa do mercado consumidor e a produção dos criadores. “Crise financeira não deveria interferir na criatividade”, sentencia ele.

Aprecie este pequeno balanço nas óticas de Monsieur Rollo (colega de trabalho e enciclopédia ambulante de estilo), Taissa Buescu (jornalista, curadora e pau-para-toda-obra, nossa colaboratrix mezzo brasileira, mezzo italiana, sempre de olho nos hypes) e Débora Aguiar (arquiteta que trabalha 26 horas por dia – não perguntem de onde ela tira as outras duas – e ainda tem tempo de viajar para absorver tendências). La parola, tutti buona gente:


Fabrizio Rollo, arquiteto e editor de estilo

Prata da casa, sangue-azul, top-editor de moda e décor, professor e consultor, ariano convicto, jornalista, arquiteto, globe-trotter, toque de midas para mise-en-scenes em geral, nosso caríssimo compila os high-lights de Milão há 12 anos. Em 2008, comemora os seus 15 anos de carreira – sim, ele começou muito jovem e continua novinho em folha! “Sempre me interessei pelo belo, por essa busca por uma estética, no mínimo, agradável. Isso faz parte de mim desde os tempos de berço. Quando os meus pais construíram a casa onde moram até hoje – e estou falando do começo dos anos 70 -, todos os lustres e luminárias eram italianos, importados pela Dominicci. Já naquela época, ainda muito pequeno, era vidrado pela beleza dessas peças, dos abajures aos lustres do living. Mas nada era mais interessante do que os espelhinhos – os interruptores de luz, que em casa eram todos Arbame, com o design minimalista de placas de inox. O chique era ter Arbame, marca italiana! A Pial Legrand era popular. Aí, de brincadeira, julgava as casas dos meus amigos pelos interruptores. Era como olhar para alguém e focar os sapatos para checar a elegância. Anos depois, a Pial expandiu e incorporou a tal Arbame, desenvolvendo produtos de alto-padrão. O tempo passou, em casa alguns já foram trocados, mas confesso que adoro clicar no interruptor e acender a luz com Arbame”. Essa figuraça comenta o que viu no Milan Design Week:

De zero a dez, que nota você daria para a feira?

Se a média é 5, então 6 está de bom tamanho. Para os eventos fora da feira, a nota sobe para sete.

Na sua opinião, qual a peça mais bacana?

Fico com um nome menos conhecido, como Ruth Gurvich, argentina radicada em Paris que trabalha a porcelana como delicadas folhas de papel.

E a mais curiosa?

Curiosamente estranho: um bowl de resina da arquiteta Zaha Hadid para a Sawaya Moroni custar algo em torno de 28 mil euros! A supervalorização do seu nome não justifica. Simplesmente um absurdo, pois o bowl não é de nenhum material tecnologicamente revolucionário ou importando de Júpiter: é resina.

Quem fez falta no evento?

Ninguém em especial. A questão não são os criadores, mas as suas criações, que tendem para um comercial chato ou enclausurado em padrõs repetitivos e sem inovação.

Você faria alguma menção honrosa a algum item que o tenha surpreendido pela tecnologia ou pela engenhosidade?

Cito novamente as delicadas peças de porcelana desta artista argentina que estudou a arte da porcelana Limoges e conseguiu, com muita sutileza e refinamento, aplicar a técnica ao produto.

Que peça você nunca teria na sua casa (ou jamais indicaria a um amigo)?

As bizarrices de Zaha Hadid, frutos de formas computadorizadas e sem alma

O que foi uma revelação dentro do evento para você?

O Nicolas B. Lecompte, um amigo canadense que conheci no Brasil e apresentou no Salão Satélite uma escrivaninha de metal cromado e tampo de tiras finíssimas de couro, como naquelas raquetes (tipo esqui) utilizadas para não afundar na neve.

Quem deixou a desejar?

Edra, B&B Itália e Moooi não apresentaram nada de extraordinário, ao contrário: tudo muito fraco e repetitivo. Crise financeira não deveria afetar a criação.

Qual o seu melhor elogio à feira?

Em comparação com as ferias de outros países, o Salão de Milão e as respectivas empresas possuem material de imprensa suficiente e organizado para os profissionais. Os pavilhões localizados um frente ao outro, com escadas e esteiras rolantes, facilitam o acesso e a maratona “feirística”.

E uma crítica?

O tal bowl da Zaha, superfaturado.


Taissa Buescu, jornalista

Jornalista, advogada, curadora de arte e design, pisciana com ascendente em Leão, brasileira da gema – só que nascida em Nova York, se é que você me entende -, Taissa radicou-se na Itália em 2003. “Sempre amei design, desde quando trabalhava como advogada de Direito Societário. Naquela época era apenas hobby, hoje é profissão. Esta é a quinta vez que visito o Salone, sempre participando das montagens de stands ou das mostras – desta vez dirigi a Block Exhibition: Turkish Marble Meets Design de Istanbul, que rolou na Zona Tortona”, conta ela, que anda achando o movimento milanês meio fraco, inclusive: “É difícil ver coisas novas, realmente interessantes”. De malas prontas para a ICFF (feira de design de NY), a espivetadíssima repórter sempre despacha news direto de terras estrangeiras para Casa Vogue, como faz aqui e agora, para o in Casa:

De zero a dez, que nota você daria para feira?

Nota 7, porquê sou boazinha. Depois de 5 anos consecutivos de Salão, morando em Milão e tudo, é difícil ver coisas novas, realmente interessantes.

Na sua opinião, qual a peça mais bacana?

Amei a nova coleção da Moroso, principalmente a linha Tropicaliente, da Patricia Urquiola.

E a mais curiosa?

O novo gaveteiro desestruturado “Raw Edges Stack”, de Established & Sons.

Quem fez falta no evento?

Sergio Rodrigues, que fez muito sucesso por aqui no ano passado.

Você faria alguma menção honrosa a algo que a tenha surpreendido pela tecnologia ou pela engenhosidade?

A peça “Veil”, de Paul Cocksedge, realizada em pastilhas de cristal transparente Swarovski, montadas como uma cortina que, refletida no espelho, forma o rosto da Monalisa de Da Vince. Maravilhoso!

Qual peça você nunca teria na sua casa (ou jamais indicaria para a casa de um amigo)?

Todas da coleção Visionnaire, de Ipe Cavalli.

O que foi uma revelação dentro do evento para você?

A nova coleção da Meritalia superou as minhas expectativas, especialmente os móveis de plástico, iluminados por dentro, com design de Mario Bellini.

Quem deixou a desejar?

A coleção de Marcel Wanders, para a Poliform.

Qual o seu maior elogio à feira?

Quanto ao Salone del Mobile propriamente dito, no espaço expositivo de Maximiliano Fuksas, em RHO, o que tem de melhor lá, além da arquitetura arrojada, é a divisão dos pavilhões, muito bem feita. Todas as empresas que produzem design contemporâneo de qualidade estão reunidas em únicos pavilhões. Assim, dá para concentrar a visita em quatro pavilhões. Não é necessário girar a feira inteira par aver o que interessa.

E uma crítica?

É em relação aos eventos “Fuorisalone”. Cada ano tem mais e mais coisas para ver, mas a qualidade é cada vez mais baixa, a cada ano. Seria necessário uma curadoria geral para elevar o nível das mostras.


Débora Aguiar, arquiteta

Paulistana com 15 anos de carreira e um portfólio que transborda das fronteiras (seus projetos já carimbaram o passaporte em Dubai, Montreal, Madrid e Las Vegas), Débora já acompanhou in loco oito edições do Salão do Móvel de Milão. “Na Universidade de Arquitetura e Urbanismo, desde o primeiro dia de aula eu já fazia estágio no escritório Carlos Bratke. Depois trabalhei com Márcio Kogan e por último no Aflalo e Gasperini. Sempre quis ser independente e tinha pressa em fazer as coisas. Hoje, com a experiência, tenho o espírito um pouco mais calmo. Entendi que é necessário sempre muita inspiração e transpiração para conquistar as coisas.

Não sabia que queria ser arquiteta até realmente ser uma arquiteta. Há pessoas que sabem exatamente o que vão ser: médicos, advogados, engenheiros. Eu não sabia. Hoje, olhando para a minha vida e prestando atenção a tantos detalhes, vejo que tinha várias pinceladas arquitetônicas na minha infância… Quando fazia a casinha da boneca Susi, tinha até elevador. Ficava horas e horas desenhando. Enfim, a vida profissional é que faz o profissional. Os sinais estão aí, basta saber captar. Mas acredito muito na conjunção esforço + oportunidade para você evoluir. Desde o primeiro dia da faculdade já estava fazendo estágio. Queria crescer, ser independente, trabalhar”. Confira as suas impressões taurinas sobre a mais recente delas, de onde voltou na semana passada:

De zero a dez, que nota você daria para a feira?

Oito.

Na sua opinião, qual a peça mais bacana?

Entre tantas, vou citar a Minotti com sua poltrona Hopper.

E a mais curiosa?

A mesa de centro de vidro da Cassina, repleta de livros no seu interior.

Quem fez falta no evento?

A B&B Italia, que estava com uma mostra linda na sua própria loja, na Via Durini.

Você faria alguma menção honrosa a algo que a tenha surpreendido pela tecnologia ou pela engenhosidade?

Prefiro não eleger uma peça. A Flexform não parou de me surpreender, até com a ambientação do seu espaço na feira.

Qual peça você nunca teria na sua casa (ou jamais indicaria para a casa de um amigo)?

As que foram expostas no pavilhão dos clássicos.

O que foi uma revelação dentro do evento para você?

A Fendi assumindo o luxo com os seus acabamentos e detalhes.

Quem deixou a desejar?

Esta não foi a vez da Gervasone.

Qual o seu maior elogio à feira?

Como panorama geral, o evento é sempre importante. O pavilhão das cozinhas estava fantástico, houve muito empenho e inovação

E uma crítica?

A dificuldade e o tumulto na hora de sair da feira, coloca em teste a nossa boa educação.

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29/04/2008 - 16:26

Trem das onze

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“Tenho a sorte de poder escolher o que quero fazer, de trabalhar naquilo que realmente me entusiasma”, contou Ron Arad certa vez à Casa Vogue (edição 255, novembro de 2006). Na ocasião, o arquiteto israelense radicado na Inglaterra conversou com a nossa Flávia Rocha enquanto viajava de Londres para Bruxelas, a bordo de um trem.


O sofá que abre o post, desenvolvido para a Moroso, foi a melhor peça do designer no último Salone. Mas eu confesso que esperava mais dele. Olhando para as novidades de Arad (como o chuveiro-banheira fabricado pela Teuco, que não coloquei aqui porquê achei pouco atraente), percebemos um certo retrocesso nessa tal liberdade, nessa ansiedade por boas novas (e boa sorte, como ele sinalizou na edição do ano passado – vide a poltrona Clover aí em cima, em forma de trevo de quatro folhas, que encabeça a retrospectiva).


Desta vez, Arad não extrapolou no shape escultural das peças – quase um desafio à utilidade, característica que tanto o marcou como experimentalista que não vê limites entre arte e design. Ao contrário: investiu na fórmula mais quadradinha do dois em um, talvez pela necessidade mercadológica. Resignações à parte, vale lembrar que a tal banheira é o máximo. Só não acho que seja a cara dele. Na sequência da série “Arquivo Arad”, pincei do seu portfólio algumas das peças que eu mais gosto: a cadeira London Parpadelle, de 2002, que lembra o movimento de um tecido na sua malha de bronze texturizado (acima); e a poltrona Big Easy, de 1992, na versão aço (abaixo). Acredite ou não, a peça é do final dos anos 80 e continua na crista da onda. É design ligeirinho, futurista, pá-pum. Rápido como um trem bala partindo de Tel Aviv, onde Arad nasceu, para o resto do mundo, onde ele transita com a ousadia de seu rabisco contestador. Tomara que ele não perca o bonde na próxima!

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28/04/2008 - 13:00

Piano in the Dark

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Um dos designers mais “sangue-bom” das novas rodas é o holandês Maarten Baas, que pulou da universidade direto para o Salão do Móvel 2003, com seu TCC estrelado (lembra daquele rapazinho travesso que tacava fogo em tudo quanto é móvel que via pela frente, como Casa Vogue mostrou na edição de janeiro, na matéria quentinha-quentinha da Taissa Buescu? Pois é o próprio). Se você reparar na barrinha lateral aí do lado, o site dele está entre os meus favoritos, desde a nossa estréia na blogosfera…

Transgressor até o fim do pavio, Baas começou queimando mobília velha, ordinária, desenvolvendo uma técnica exclusiva de carbonização, que deixa a madeira resistente ao ponto de “assar’ sem derreter ou virar cinzas.

Depois o menino fez o circo pegar fogo com os móveis clássicos e as peças assinadas – note o churrasquinho da cômoda século 19, aí em cima, e da poltrona Favela, dos Campana, aí embaixo (aliás, ontem a Revista da Folha publicou reportagem ótima sobre o Salão, com destaque para os manos – quem acompanha o blog já tinha visto antes aqui!).

Voltando à chama do dia, não custa nada lembrar que nem só de pirotecnia e reinterpretações de acabamentos vive o incendiário. No ano passado, ele criou a primeira coleção a partir da estaca zero (o que inclui forma, volume, desenho e proporção). Seus amores pelas matérias alternativas, como argila, e pelas silhuetas assimétricas, como as inspiradas na pré-história, mais uma vez deram o que falar (vide a mesa e as cadeiras tipo Flinstones, abaixo).

Como rebeldia pouca é bobagem, Mister Baas esnobou o Salone Internazionale del Mobile e o Fuorisalone para apresentar as novas coleções às margens dos dois megaeventos. Sim, o cara rejeitou o circuito – mas aproveitou o burburinho da cidade italiana, já que não é bobo e nem nada -, escolhendo uma oficina mecânica no subúrbio para desfilar suas novidades. Vi uma reportagem ótima da Juliana Lopes no site do editor & love-of-my-life André Rodrigues (que soprou velinhas quinta-feira, diga-se de passagem). Passa por lá e confira o babado, antes que esfrie: clique aqui.

Sei que uma coisa não tem quase nada a ver com a outra. Mas como adoro os anos 80 e black music de qualquer vertente em geral, me lembrei da melosa Piano in the Dark, da Brenda Russel, quando escolhi a imagem do Baas que abre esse post. O trocadilho é infame, a canção é canastrona (às vezes sou meio old fashioned para música, confesso), as bailarinas são uó e o figurino purple rain da mulé é trash eighties total. Mas eu adoroooooooo mesmo assim. E você?

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26/04/2008 - 00:00

The book is on the table

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Não curto muito essa coisa de recomendar livros com seleções de decoração. Muitas vezes, o mercado editorial confunde a gente e fica difícil separar o joio do trigo, aquilo que é catálogo meramente comercial (o conjunto sem edição, sem o capricho de uma curadoria por trás, do tipo “pagou, entrou”) daquilo que é compilação mesmo (comercial ou não) de projetos com unidade, ligados por um mesmo tema ou estética. Nada contra esses registros, muito ao contrário. A demanda existe – e a democracia, também. Mas, na maioria das vezes, falta direção, sensibilidade, algo além do vil metal que impulsiona a máquina.

Este AR, lançamento do MCA Estúdio (Denilson Machado, Juliano Colodeti e Leonardo Costa), que escolhi para o post de hoje, vale uma espiada. O projeto gráfico é bem cuidado, as casas foram bem fotografas, os projetos conversam entre si. Se tiver a oportunidade, veja e me conta.

A forma como o book aterrissou neste post também marcou pontos. A espivetada Denise Delalamo (amiga querida que não pára quieta um minuto e está sempre com o astral na estratosfera) trouxe o Denilson pela mão – um dos donos do tal estúdio – para me conhecer. Fotógrafo apaixonado pelo que faz, logo me convenceu da vibe positiva da empreitada.

Para dar uma deixa do recheio, selecionei uma amostra dos projetos de Sig Bergamin, Arthur Casas, Dado Castello Branco, Débora Aguiar e Marco Aurélio Viterbo, – postados aqui nesta ordem, de cima para baixo. Uma inspiração para arquitetos, decoradores, estudantes do segmento e gente que curte casa em geral. Tá recomendado! estudio@mcaestudio.com.br / www.mcaestudio.com.br

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25/04/2008 - 01:29

A Bela e Fera

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Dica para hypar ainda mais o roteiro de quem vai encarar um gira-gira na virada cultural – ou manter o pique “tô de olho” depois dela: expo de Luciana Araújo na Rojo Artspace. Artista plástica da nova geração (sangue novo é sempre muito bem-vindo), a moça cria ícones que reproduzem o universo rock’n roll em objetos de arte e moda – Luciana já ilustrou várias revistas, fez trabalhos para a MTV e para a Melissa, levou seus rabiscos transados para Londres e colocou seus toys à venda na Plastik. Agora, desde ontem (24 de abril), ela está em cartaz com nova série de pinturas que registram uma nova fase: saem o vazio e as figuras solitárias e entram temas mais femininos, cotidianos e atemporais. As pinceladas da mostra citam clássicos do Heavy Metal e trazem referências de capas de discos dos anos 80, com influências psicodélicas e muita fluorescência. Sem abrir mão da linguagem subjetiva e figurativa, ela aborda o comportamento contemporâneo, com suas bestas e suas feras. É arte pop nova, a preços módicos – pelo que vi, os preços são bastante acessíveis.
E quem soprou o babado no meu ouvido foi a minha amigona (quase irmãzinha) Erika Balbino, cineasta e comunicadora da hora. Ex-cicerone da Maison de La France, conheci Erikinha em terra estrangeira, muitos invernos atrás. A mulher tem faro fino para as coisas…
www.rockchickdesign.com

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24/04/2008 - 14:00

X Files

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Continuando a degustação do bife à milanesa como prato principal da semana, é claro que o baião-de-dois Fernando e Humberto Campana anda arrasando por lá, só para variar um pouquinho.

Superdestaques da edição 2008 do Salão do Móvel, a Aguapé Chair, encomendada pela Edra, e a coleção de toys para a Alessi, estão dando o que falar. Os toys eu fico devendo, já que tenho uma notinha-surpresa programada só sobre essa estética (que eu adoro) para a próxima semana. Daí escolhi essas duas versões da Aguapé para ilustrar o drops do dia, em clima bem hot, hot, hot.

Repare no shape eco-tecno da peça, que simula pétalas de flores no recorte a laser das placas de couro (que pode ser natural, branco, pink ou verde). A inspiração do desenho foi uma vitória-régia – sacou as perninhas sugerindo o caule da planta?

Acho que ninguém da imprensa brasileira noticiou esses lançamentos ainda – pelo menos não que eu tenha visto (será que eu tô por fora?). Furo ou não, aproveito a prerrogativa do último grito dos manos aí em cima, para fazer um flashback preguiçoso (mas contundente) aí embaixo: direto dos nossos arquivos nada empoeirados, a entrevista exclusiva que fiz com os big brothers para a Casa Vogue de agosto do ano passado (parece que foi ontem – e de fato, foi). E nem tente farejar naftalina no ar, porquê a dupla dinâmica tá sempre tão na frente de tudo e de todos, que o mexerico continua atual.

Código genético

Um bate-papo com os irmãos Fernando e Humberto Campana, a dupla que subverteu a mobília em nome dos novos tempos e colocou o design made-in-Brasil no topo do mundo

Por Allex Colontonio

Oito anos de diferença separam os irmãos Fernando e Humberto, meninos do interior paulista que trocaram as cascatas de Brotas, terra recortada por cânions e cachoeiras, pelas corredeiras ariscas de um rio chamado design. Mas a linha do tempo é quase nada comparada à poética do traço que os une. E são essas formas etéreas, mutantes, quase vivas, avessas a qualquer silhueta conhecida antes deles, que converteram seu nome numa senha de acesso ao circuito internacional, em sua expressão mais vanguardista. Na órbita onde flutuam a arte e o design, suas peças falam de um Brasil cheio de alegorias, mas sem nenhum folclore. Lá estão o nosso artesanato, as manufaturas, nossas fibras e vestígios: tudo aquilo que rejeitamos e para o qual eles sempre inventaram novo uso enquanto poucos bradavam odes à sustentabilidade. São contornos conceituais que não desprezam a função, estruturas que podem impressionar tanto pela complexidade quanto pela simplicidade, pela construção como pela desconstrução, pela subversão da matéria, pela graça. Fios emaranhados, linhas entrelaçadas, naturezas cruas, resíduos industriais, colchas de retalhos, bonecas de pano, travessuras de criança peralta. Para eles, nunca houve limites. Tem sido assim desde os primeiros esboços, quando a série de cadeiras Desconfortáveis sinalizou o norte da dupla e, pouco mais tarde, quando a poltrona Vermelha cruzou as fronteiras para ganhar o mundo. Vinte e cinco outonos se passaram desde o primeiro croqui. Vieram as exposições no MoMa, de Nova York, o catarse nas feiras de design, os contratos com a Edra, Alessi, Artecnica e Magis – titãs do mercado que produzem suas criações lá fora. Mas eles continuam simples, generosos e curiosos, investigando linhas, volumes e texturas no estúdio com jeitão de ateliê, onde a fita rola sem script definido ou embates zodiacais. Humberto, o mais velho, pisciano, visceral, encontra o eixo em Fernando, taurino, mais pragmático, mas não menos inventivo. Um desenha, o outro aperfeiçoa e os papéis são invertidos ao sabor dos ânimos de cada um. “Alguém nos perguntou como conseguimos trabalhar juntos durante todos esses anos e eu respondi: é simples, brigamos todos os dias”, brinca Fernando. Os big brothers ávidos por novidades conversaram com Casa Vogue na volta de um périplo em Londres. Por lá, causaram impacto ao interferir na arquitetura de Frank Loyd Write com uma imensa oca de palha na entrada do Vitra Design Museum. Outra peripécia que os manos deixam cravadas no tempo e no espaço, sem a menor pretensão e nenhum perfume de vaidade.

Casa Vogue: Na infância, vocês preferiam ir ao cinema e montar cabanas ao invés de jogar bola. Quais as influências estéticas que vocês absorveram naquele período e como isso interferiu na sua criação?

Humberto Campana: Nascemos numa cidade do interior, com um riacho no fundo. Pescávamos, construíamos esconderijos, no verão represávamos a água com pedras para fazer piscinas. À noite, sempre íamos ao cinema e, mesmo sendo menores de idade, conseguíamos ver os filmes de Stanley Kubrik, Pasoline, Fellini (o dono do cinema era nosso amigo). Gostávamos também de brincar com a terra, fazer horta, esculpir coisas em barro, criar. Não havia televisão, mas papai assinava algumas revistas e nós acompanhávamos, embasbacados, à construção de Brasília, com aqueles esqueletos de Niemeyer brotando no sertão. Tudo isso foi uma inspiração.

Fernando Campana: Tem a ver com Brotas, onde crescemos. Minha mãe era professora, meu pai, engenheiro agrônomo. No interior, as pessoas inventavam a vida com poucos recursos, estavam mais abertas à criatividade, assim como os nossos imigrantes italianos, que chegaram aqui pobres e tiveram que se virar. Essa coisa de melhorar a casa, de construir coisas para a casa, cuidar do jardim, de aperfeiçoar o espaço, sempre fez parte das nossas vidas, assim como outras referências. Quando vínhamos de trem para São Paulo para acompanhar meu pai em alguma visita à Secretaria da Fazenda, ficávamos fascinados com a Estação da Luz, que é espetacular. E o Masp, de Lina Bo Bardi… lembro de olhar aquilo e pensar “nossa, como é que ele para em pé?”

Casa Vogue: O sotaque brasileiro do seu traço e das matérias-primas é bastante explícito. Isso tem a ver com essa ligação com a terra?

Humberto Campana: Nossa trabalho é um retrato da nossa cultura, mas sem regionalismos. Talvez por isso o mercado internacional valorize tanto. Eles são bastante interessados nessa coisa do desenvolvimento sustentável, no que os países emergentes estão fazendo…

Casa Vogue. Há 20 anos, quando pouco se falava sobre sustentabilidade, os Campana já ganhavam o mundo com peças alternativas tramadas a partir de materiais recicláveis. Essa característica ecologicamente correta já era algo visionário ou foi intuição?

Humberto Campana: Acho que foi mais por necessidade do novo do que por consciência ou intuição. Quando começamos, há mais de duas décadas, ouvia-se muito que o brasileiro precisava se adequar à indústria. Como sempre tivemos paixão pelo design, resolvemos seguir outro caminho. O design italiano do pós-guerra, por exemplo, se reconstruiu a partir do nada. Então, se somos um país pobre, não high-tech, com tantos recursos alternativos, porquê não olhar para isso?

Casa Vogue: E o lado social, também é uma questão latente para vocês? Existem mensagens subliminares por trás do conceito?

Humberto Campana: A primeira intenção social do nosso trabalho é contaminar outros criadores. A cadeira Favela, por exemplo, carrega uma mensagem do tipo “faça você mesmo”. A própria favela que a inspirou, é algo maravilhoso, que fascina o mundo inteiro. Tirando a violência nessas comunidades, é surpreendente ver como as pessoas ali fazem coisas maravilhosas com tão pouco, como elas dão novas soluções a vestígios de madeira, de lixo. De volta ao social e ao processo em si, nossas criações também apostam no artesanato solidário, em agregar design ao trabalho de artesãos maravilhosos. O Brasil está repleto deles.

Casa Vogue: Fernando estudou arquitetura e Humberto, direito. Existe uma vertente mais racional ou emocional por parte de um ou de outro? Quem “viaja” no traço e quem estabalece os limites técnicos da criação?

Humberto Campana: Quando escolhi a profissão era a época da ditadura. Fomos criados para ser médicos, engenheiros, advogados. Eu queria ser artista e só investi no Direito por conta da Lygia Fagundes Telles, de quem eu era fã. Lia suas histórias sobre a Faculdade São Francisco, onde ela estudou, e queria o mesmo para mim. Me formei e vi que não era nada daquilo. Quanto ao processo, não acho que um seja exatamente mais ou menos participativo do que o outro. Criamos muito juntos, os dois são apaixonados por isso. O Fernando costuma dar forma aos meus sonhos, mas os papéis sempre se invertem também.

Fernando Campana: Sem dúvidas, o Humberto sonha mais. Eu sou muito mais pragmático, mas nós dois criamos e nós sempre alternamos o papel de aperfeiçoar o produto, viabilizá-lo, se for o caso.

Casa Vogue: Como estabelecer os limites entre arte e design na obra dos Irmãos Campana?

Fernando Campana: É difícil delinear limites entre uma coisa e outra. Seria como tentar separar o nosso lado capira da porção urbana. Nunca limitamos a nossa forma de ver as coisas. Começamos o nosso trabalho com arte, por exemplo, expondo as Desconfortáveis, uma série de cadeiras que nem se pareciam com cadeiras, numa galleria de arte. Não buscamos definições. Já desenhamos jóias para a H.Stern sem ser joalheiros e já desenhamos sandálias para a Melissa sem ser sapateiros… O que nos interessa é a criação.

Casa Vogue: O look divertido, com uma pitada lúdica, é uma das características marcantes do seu trabalho. De onde vem esse senso de humor?

Fernando Campana: Não somos sisudos, somos brasileiros (risos). Como todo brasileiro, não sofremos de mau-humor. O que você esperava de alguém que cresceu vendo de Stanley Kubrik a Mazzaropi? (rs)

Casa Vogue: Existe algum material que os Irmãos Campana ainda sonham em domar?

Fernando Campana: Acho que já domamos quase todos (risos). E vamos continuar pesquisando, pois é aí que está a graça da coisa. Vale usar tudo, desde que você não danifique o planeta. Mas já pensou numa cadeira de gás encapsulado em garrafinhas? Seria algo divertido…

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23/04/2008 - 00:00

Decifra-me ou te devoro

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Mais uma da série “parece mas não é”: tente adivinhar o material da chaise Cleopatra aí em cima. Se você falou madeira, fibra sintética, polímero, isopor, papelão, alumínio, ferro, aço, resina, pasta de vidro, concreto, gaze de enrolar múmia ou outra coisa qualquer que não seja pedra, errou. Sim, ela é esculpida a partir de um bloco único de calcário (o mesmo mineral usado na construção das Pirâmides e da Esfinge no Egito). Cria do designer Fabio Alemanno em parceria com o cientista Billigmann (especializado em tratamentos de artrite), a peça resgata a tradição egípcia das terapias com pedras quentes, prometendo melhor circulação do sangue, relaxamento muscular e reforço do sistema imunológico – você liga a peça na tomada, aciona os três pontos de aquecimento (cabeça, base das costas e pernas) entre 36 e 42 graus, e acorda como se tivesse dormido mil anos no sarcófago de um faraó.

Com base de fibra de vidro, pintura laqueada e revestimento opcional de couro – elementos que não interferem na ação do calcário – a Cleopatra funciona na varanda, na borda da piscina, na sauna ou até dentro de casa, se você tiver força para arrastar seus 150 quilos para lá e para cá.

Apresentada no último Salão do Móvel de Milão (não disse que ia rolar um drops direto de lá?), por enquanto a espreguiçadeira não chegou no Brasil, mas dá para encomendar no website do designer.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/04/2008 - 00:15

Gasparzinho

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Visualmente, adoro a Panton Chair e esse shape sinuoso meio “fantasminha camarada”, tudo de moderno nessa vida. Mas, venhamos e convenhamos, ela não é lá das mais práticas – a base é meio pesada, faz um barulhão para arrastar, e a única forma de se sentar nela à mesa, por exemplo, é “roçar” o chão para encaixar você entre os dois móveis, por exemplo. Se o seu piso for de madeira, um abraço. Outra coisa: embora confortável, não é a diva da ergonomia e passar o dia nela pode deixar as costas da gente em frangalhos! Mas como não é uma cadeira de trabalho, bem-feito para quem precisou de emplastro Sabiá após o uso sem moderação.

Mesmo assim, pelo efeito, eu teria uma dúzia delas – aqui na editora, há um exército em stand by, para os dias de visita, reuniões ou excesso de contigente no fechamento. No nosso jardim modernérrimo (plantado pelo Roberto Riscala), a grande mesa Saarinen oval contracena com uma coleção de Panton (tudo branco) à sombra de um ombrelone. Não tem um sujeito que chega ali e deixa de comentar “que bonito!”.

Criada em 1960 pelo genial e colormaníaco Verner Panton (1926-1998), designer dinamarquês que foi pupilo (e enfant terrible) de Arne Jacobsen, a cadeira produzida pela Vitra – também conhecida como “Stacking Chair” ou “S Chair” (adivinhe o porquê?) – talvez seja o móvel de plástico mais famoso do século XX. Se não for, certamente, é o mais sensual deles – não pense que sou um tarado pansexual que ataca cadeiras, mas de tanto ouvir o nosso franco-colaboratrix Danniel Rangel falar sobre a “sensualidade” das curvas no mobiliário, acabei me contaminando. O designer Fabio Novembre foi um pouquinho além e fez uma leitura erótico-explícita da peça. Em recente intervenção apresentada no último Salão de Milão (aquele que eu não fui), ele levou esse apelo às últimas conseqüências, “siliconando” as costas da grande musa de Panton (veja mais no site Casa Mania, que comercializa a cadeira). Pode ser divertido para uma exposição e funcional para uma boate ou um sex shop. Mas não leve a sério (muito menos para a casa): a original é bonita pacas – mesmo com o inconveniente de arrastar – e dispensa bunda e panturilhas turbinadas. Entra lá no museu do Panton e se divirta com as muitas variações do seu S mais célebre: clique aqui!

No Brasil, faça o test drive na Micasa ou na Tok&Stok antes de comprar.

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21/04/2008 - 17:50

Clube da Esquina

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Da série “Hoje é dia de Maria” – e ainda no barato “sou caipira, pira, pora” de quem acabou de voltar do interiorrrrrrr (com muitos “erres” no final), tirei o 21 de abril para citar Tiradentes, paragem mineira onde foi tramada a Inconfidência, um dos episódios mais emblemáticos da história do Brasil, consagrando a alcunha de um dos seus personagens mais heróicos, Joaquim José da Silva Xavier.

Não volto à cidade já faz algum tempo, mas taí um programex irresistível que coloquei nos meus planos de repeteco – talvez eu fuja pra lá no próximo feriadão. O roteiro é bem básico: passeia-se por alamedas charmosíssimas com seu casario e igrejas tombadas pelo Patrimônio; toma-se um banho de História; come-se do bom e do melhor (esquecendo os bons modos, como não se deixar empanturrar pela quituteria típica preparada no fogão à lenha?); e, o mais legal de tudo, garimpa-se um dos melhores artesanatos brasileiros, dos santos barrocos aos móveis e utilitários talhados em madeira de demolição, passando pelas esculturas de pedra sabão. Tive uma gamela bárbara made in Tiradentes, que acabei doando para a minha mãe, por que não agüentei os olhinhos pidões dela. Agora, o único acessório que sobrou daquelas bandas no meu humilde cafofo é a bandeja de demolição (será que dá pra identificar a dita cuja aí no meio?), levemente patinada, presente da queridíssima Ana Paula “Nonoca” Nogueira, voguer das minhas.

A bandeja anda espremidinha no meu bar (prometo dar uma arrumada nele, que tá caótico por mera falta de espaço – e também por falta de algum desapego, confesso), mas ainda assim é o meu xodó, suporte de drinks, licoreiras e bizarrices pseudo-criativas, como a garrafinha vintage de Coca-Cola onde “plantei” um galho de jibóia que não pára de crescer. O bandejão de Tiradentes pode até não combinar com a vizinha laranja da direita (que comprei na alemã Berliner) e com a preta da esquerda com alcinha de coral, regalo de outra amiga, a Jane, que viu na Coisas da Doris e achou a minha cara. Mesmo assim, essa eu não dou, não troco e não vendo. Na hora de fazer esse clique mambembe, me lembrei de Mademoiselle Chanel, que dizia que antes de sair de casa as pessoas deveriam se olhar no espelho e tirar alguma coisa, sempre. Mesmo assim, não consegui remover uma cachaça sequer da cena original! Feio, né?

Não tô bêbado, mas como a missão deste blog é sempre pinçar alguma novidade – e eu tô muito longe das Gerais para indicar algo de Tiradentes além da minha abarrotada bandejinha-sempre-cabe-mais-um -, colo aqui o contra-ataque da Dom Pérignon à Veuve Clicquot cor-de-rosa do Karim Rashid (veja meu post-entrevista com ele no arquivo do dia 09/04). A espumante estrelada acaba de ganhar embalagem especial by Marc Newson, um dos titãs do design internacional (logo, logo, vou contar o que ele anda aprontando por aí além de hypar garrafas de champagne). É ou não é um baita upgrade no bar de qualquer um?

Para a saideira de post tão etílico, retorno à trilha que conduz àquela terrinha boa e deixo vocês com outros dois mineirinhos bebem-quietos que todo mundo adora: Milton Nascimento e Lô Borges, os pais do Clube da Esquina, um dos movimentos mais batutas da MPB, que só poderia ter nascido num boteco. Cheers!

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19/04/2008 - 05:15

Dança da Chuva

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O post de hoje balança mas não cai, já que escrevo usando uma conexão à lenha que ameaça ir pras cucuias a qualquer momento. Tudo a ver com o tema do dia, que é analógico mesmo. Embora não tenha ido para Milão por 3.983 motivos (onde tá rolando a edição 2008 do Salão do Móvel), nos últimos dias estive conectado, via satélite (leia-se os nossos amigos e colaboradores internacionais), com os hypes da feira de design mais trendie do planeta. Por lá, é óbvio, fala-se de sustentabilidade e dos muitos criadores que embarcaram numa vibe mais orgânica tanto nas formas como na matéria. Resgates à parte, na essência, é tudo tecnologia que não acaba mais – me aguardem, pois semana que vem conto tudo para vocês.

Agora, com os pés literalmente no chão, no começo de um feriadão merecidíssimo após dois fechamentos encavalados, saí feito uma flecha de Sampa para recarregar as bateras num sítio não muito longe de lá – mas não perto o bastante para ouvir barulho, pegar trânsito e tossir com a fumaça da urbe. Rendido neste recôndito caipirinha, roendo capim e pensando na tristeza do Jeca, troco a mobília grifada da vez que meus amigos estão pinçando no “estrangeiro”, pela pureza de outras tribos.

Explico. Como em quase todo o Estado, nas cercanias aqui de Socorro – não zombe do nome, porquê a cidade é tudo de bão -, ainda há remanescentes de comunidades indígenas, os verdadeiros donos desta terra tomada por nossos ancestrais europeus (meus avós são italianos, então me incluo na máfia dos imigrantes, sem negar o sangue tupiniquim da mistura). Passeando pelos arredores de Help City, dei de cara com umas cerâmicas tipo marajoara (digo “tipo” porquê simplesmente se parecem e ninguém conseguiu me explicar a etnia correta dos artesãos) que estavam sendo vendidas a um preço ridículo – R$ 3,50 um pratinho com umas gravações incríveis, que devem ter levado horas – e muitas gotas do suor de alguém. Ultrajante!

Como hoje se comemora o Dia do Índio, qualquer discurso brasilianista aqui vai soar romântico ou demagogo demais, então, substituo as palavras por alguns atabaques tapajós e marajoaras que expressam um pouquinho o valor cultural da arte e do artesanato produzido pelas tribos brasucas. Taí uma referência excêntrica de décor quase tão antiga para nós quanto as naus de Cabral que atracaram na Bahia – embora considerados artefatos pagãos pelos colonizadores, segundo consta, os caciques portugas adoravam dar pinta com nossos penachos, entre quatro paredes. Nos anos 60 e 70, quem não tinha um cocar pendurado na parede, boa gente não era.

Na minha taba vertical 4×4 tenho gamelas, cestarias e bandejas que também comprei a preço de banana no Depósito Kariri, na esquina da Arthur de Azevedo com a Henrique Schaumann. Pena que não tenho como mostrá-los agora, mas se vocês quiserem, posto quando voltar! O fato é que isso tudo é muito bacana para ser assim, tão desprezado. No ano do Brasil da França, eu estava lá e pude ver o quanto a cultura indígena era valorizada por eles, com exposições nas grandes galerias e arte tribal e plumária (vintage, é claro, porquê hoje isso é sabiamente proibido por questões ecológicas) vendidas a preços exorbitantes – com repasse legal para ONGs ligadas à Funai. Tá?

Para tocar o seu coração, colo aqui a canção Amor de Índio, composição de Beto Guedes com o queridão Ronaldo Bastos (que durante a edição “Música Fotográfica Brasileira”, que a Vogue produziu há alguns anos, ficou internado aqui com a gente um tempão, contando causos do arco da velha). Adoro essa versão ao vivo da Bethânia, que encerrava o seu show Maricotinha. Reparem como ela se entrega ao verso “todo amor é sagrado”. Lindo. E nada pode ser mais índio – e sagrado – do que o amor.

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