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Arquivo da Categoria Artes

27/05/2010 - 10:37

A mosca que pousou em sua sopa

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E ontem começou a expo de Regina Silveira na Galeria Bolsa de Arte de Porto Alegre (www.bolsadearte.com.br). Adoro tudo o que ela faz. Regina ficou conhecida na década de 80, por suas paródias da perspectiva e das sombras projetadas. Naqueles anos loucos e desvairados, onde o exagero ditava as regras do jogo, a mulher realizou uma série do balacobaco batizada de Anamorfas, conjunto de gravuras e desenhos fundamentados em distorções dos contornos lineares de pequenos objetos.

O trabalho de Silveira, diversificado no uso de materiais e meios (gravuras, tapetes, objetos, vídeos, instalações, projeções), está fundamentado em suas reflexões sobre a natureza ilusionista de imagens e espaços, sejam representados ou experimentados.

Certa vez estive na casa da Luciana Brito e morri de amores pela mosca gigante de Regina posada numa parede do living – intrigante, instigante, divertida e absoulutamente interativa com o look da casa da galerista. Fiquei fã de carteirinha. Para o blog, escolhi duas louças-esculturas que jamais passariam despercebidas: uma com a insetolândia que a consagrou; outra com a surreal freada de pneu.

Autor: - Categoria(s): Artes, Design Tags:
13/05/2010 - 17:35

Chic no úrrrrtimo

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E hoje tem pregão chic na Paulicéia. João Pedrosa, a maior autoridade em antiquariato que eu conheço, bate o martelo para quem der mais em Colecionando Chic, leilão que agita os bambas ligados em arte e décor.

Vi o catálogo do prólogo ao epílogo e afirmo: são 160 peças simplesmente espetaculares, garimpadas em viagens, feirinhas ou cooptadas nos leilões e acervos mais concorridos do mundo – com a expertise e o bom gosto singulares de Monsieur Pedrosa.

Entre, fotografias (como o belíssimo retrato de Carmen Miranda, feito por Jean Manzon nos anos 40), muranos, cerâmicas (um prato de Fornasetti dos anos 60 está entre as estrelas), serigrafias (fique de olho na de Ivan Serpa), pôsteres, pinturas e biombos (você vai ficar de queixo caído pela peça de quarto folhas pintada por Buffoni nos anos 50), dá pra confiar de olhos fechados na curadoria do antiquário, colecionador e galerista que sabe tudo de estilo.

A quem interessar possa, reproduzo aí embaixo o texto do próprio curador, explicando o conceito do acervo e sua razão de ser. Um motivo a mais para investir em peças certificadas pelo tempo, pela história e por uma estética acima de qualquer suspeita:

“Porque chic? Porque o chic se faz necessário no mundo de hoje mais do que nunca. O que é chic? Não explique o seu chic, ou outras pessoas podem copia-lo. Ou até mesmo você. E isso nunca é chic. Peças na coleção tem chic. Uma qualidade indefinível. No conjunto e no indivíduo. No coletivo ou no particular. Todas as peças aqui oferecidas, são provenientes de 2 coleções com um só tema, ele mesmo, o Chic. Aqui estão não só artistas que já foram ou sempre serão chics, mas peças chics dos mais variados tipos de artistas. Começa-se com arte dos anos 1950/60/70, como o construtivo Ivan Serpa; e um expressionista abstrato francês, que foi moda em seu tempo: Georges Mathieu.”

E o mais pop de todos: Victor Vasarely. Uma poética aquarela de Cícero Dias e uma magnífica pintura abstrata de John Graz, de 1975, são high-lights. Conseguimos provar que até artistas que tem algo kitsch tem obras chic: Walter Lewy e Toyota. Mais arte chic na forma de nus, retratos, e naturezas-mortas. Nas artes decorativas, um raríssimo biombo de Buffoni, um italiano, que foi paulistano nos anos de 1950 a 70. Mobiliário tem seus grandes nomes, que começa pelos internacionais Hoffman e Florence Knoll, para chegar aos brasileiros Dinucci, Zanine, Sérgio Rodrigues, e Scapinelli.

Na forma de art déco, ferronerie dos anos 40, e uma peça muito rara do estilo aerodinâmico brasileiro, uma mesa lateral, com o tampo marchetado com motivo de araucárias. Em fotografia, algumas colecionáveis fotos de grupos, de moda do século XIX, e elegantes estudantes do entre-guerras inglês. Na fotografia, clássicos, como Pierre Verger e Jean Manzon, internacionais como Miguel Rio Branco, e modernos, como Daniel Klajmic, Martin Usborne, e Rubem Azevedo, com um díptico quase único. Um vaso raríssimo do genial Dino Martens, para a vitreria “Arte Vetraria Muranese” (A.Ve.M.), da extraordinária série “Oriente”. Vidros de Ingeborg Lundin e Max Werboeket, além de Timo Sarpaneva e Tappio Wirkalla. Um prato dos anos 1920, do artista Art Déco parisiense, Leon Leyritz. Peças nórdicas de Iittala, Kosta, e Orrefors. Cinzeiros da vitreria A.Ve.M., de Murano dos anos 50, e os coloridos e decorativos vasos-garrafa, dos anos 1960/70. Cerâmicas vão dos anos 1930 até 1970, incluindo grandes nomes do Art Déco francês como o famoso F. Bichoff. E outros grandes nomes como Gouda (Holanda), Beswick Ware (Inglaterra), Amphora (tcheca), Streamline (Norte-americana), Bavária (Alemanha), Fat Lava (Alemanha Oriental), e Rosenthal Netter, marca alemã, feita na Itália, para o público norte-americano, são destaques. Além de uma peça única da melhor cerâmica nacional: Ars Bohemia, desenhada com ponta seca. E o italiano genial Piero Fornasetti, com um de seus divertidos pratos de porcelana. As artes gráficas estão representadas por raridades geniais como 4 gravuras do livro “Sertum Palmarum Brasiliensium” de J. Barbosa Rodrigues, de 1903, a melhor peça da flora brasileira do século 19. E gravuras de interiores Art Déco, do folio parisiense, de 1925, “Ensembles Mobiliers “, do editor Charles Moreau. Um poster do fashion designer dos anos 1980, Jean-Charles de Castelbajac, e outro do mestre do design gráfico e decorativo dinamarquês dos anos 1960/70: Bjorn Winblad.

Objetos decorativos como caixas de laca japonesa art-Déco, bandejas, luminárias, tapetes espelhos e, nada mais chic, aquarelas de interiores assinadas por Ben Botoeiek. Bronzes de animais incluem um rato no estilo cartoon, que é outra jóia do leilão, prata da ainda atual marca W.M.F. e até portuguesa, feita à mão, dos anos 1940.

Esse é também um leilão de peças acessíveis, pois fora 10% das peças (16), que são high-lights internacionais, e que tem estimativas de acordo com seu status, as outras 90% das peças (144), tem o preço médio de apenas R$ 2.000. Cada peça tem características próprias, seja no material raro ou exótico, na manufatura formal, na assinatura perfeita para aquele objeto, seja uma indefinível qualidade que é quase intangível, ou até uma característica óbvia. Essa é uma seleção que merece ser chamada como tal, e um leilão único. Com essa rara curadoria é possível mobiliar e acessorizar qualquer endereço elegante, quando não completar com high-lights, uma chic e erudita coleção.” João Pedrosa, curador.

+ www.artepedrosa.com.br

Autor: - Categoria(s): Artes, Décor, Design Tags: ,
26/03/2010 - 17:08

Foto em casa

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Já escrevi aqui muitas vezes sobre o espaço que a fotografia vem ganhando entre as artes plásticas e, consequentemente, potencializando o seu status enquanto um dos elementos mais bem cotados na decoração contemporânea – até pela acessibilidade.

Coloridas ou p&b, fotografias sempre causam sensação quando penduradas como quadros, contracenando com pinturas (ou substituindo-as mesmo); apoiadas no chão ou sobre um aparador, e sobrepostas enigmaticamente, compondo um mosaico.

A tendência está aí e é um prato cheio pra quem curte, como eu. Infelizmente, não tenho (ainda) nada de Pierre Vergé, Robert Mapplethorpe, Sebastião Salgado, Mario Cravo Neto ou Cartier Bresson, e morro de inveja (branca) do Otto Stupakoff da minha amiga Patricia Favalle. Mas devo dizer que tenho um certo orgulho da minha pequena coleção.

Faz quase 12 anos que colaboro ativamente para o mercado de luxo (dez deles, só na Vogue). Tanto tempo lidando com excelência gráfica, onde a matéria-prima (uma boa foto) é fundamental, me deu certa expertise para identificar que aqui no Brasil existem bons fotógrafos, excelentes fotógrafos e os melhores fotógrafos. E existe Romulo Fialdini, na minha modesta opinião, acima de qualquer categoria classificatória.

Enquanto os grisalhos balzaquianos pipocam entusiasmadamente na minha cabeça, olho para trás e percebo que nunca vi uma foto “mais ou menos” do cara – quem leu a Casa Vogue de fevereiro, já sacou a admiração que tenho por ele – a sacada, o ângulo, o recorte, a luz e a poesia por trás do clique são inconfundíves.

Tudo isso para dizer, orgulhosamente, que meu cafofo acaba de ser condecorado (afinal, ele merecia!) com um take incrível do elevador Lacerda, de Salvador, com assinatura do mestre Romulo. Iria postar a tal imagem aqui, mas daí fui mais longe e resolvi mostrar um pouquinho do universo estético do artista por trás das lentes. De quebra, você ganha uma dica de decoração infalível: leva estilo, personalidade, traquitanas chiques e, como não poderia deixar de ser, muitas fotos. Com vocês, o fabuloso mundo de Romulo!

Autor: - Categoria(s): Artes, Décor Tags: ,
23/03/2010 - 17:21

Atenção: Homens Trabalhando!

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Que atire a primeira marreta quem nunca adentrou os recônditos de uma obra e calcou sua pegada no cimento fresco…

É muito comum, no âmbito da construção civil, mestres de obras, pedreiros e serventes, inventivos que são, criarem mesas, cadeiras, bancos, camas e outros móveis efêmeros (para uso pessoal e intransferível) a partir de descartes de madeira e o que mais estiver ao alcance das mãos. Por trás desse design tosco, quase marginal, está o suor de uma das labutas mais ingratas (e fundamentais para a sociedade), além do senso de ergonomia e pureza de uma gente que quebra o coco, mas não arrebenta a sapucaia. É a máxima da funcionalidade, que rechaça toda e qualquer vaidade em nome do uso. Há, nisso tudo, uma poesia que quase ninguém enxerga. Marcio Kogan e companhia (Beatriz Meyer, Carolina Castroviejo, Diana Radomysler, Eduardo Chalabi, Eduardo Glycerio, Gabriel Kogan, Lair Reis, Maria Cristina Motta, Mariana Simas, Oswaldo Pessano, Renata Furlanetto, Samanta Cafardo, Suzana Glogowski e Álvaro Wolmer), não só notaram a graça da coisa, como vislumbraram ali um universo estético imaculadamente criativo e potencialmente antenado (com questões atualíssimas como as tendências que apontam para a frugalidade no desenho e para o reaproveitamento de materiais em nome do meio ambiente).

Acabo de bater um papo com o arquiteto sobre a nova (e genial) coleção de móveis que leva assinatura do seu StudioMK27, para a Micasa.

Batizada de “Próteses e Enxertos”, com ares – absolutamente despretensiosos – de instalação de arte, os móveis são de uma simplicidade absurda, mas é claro que têm um quê de engenhosidade e vanguarda típicos da trupe de Kogan.

Resgatados dos canteiros de obras dos projetos do escritório, os móveis construídos por trabalhadores anônimos ganharam pequenas – e notáveis – intervenções (as tais próteses e enxertos). Nesse contexto, uma mesa de tábuas pregadas foi condecorada com uma luminária de cobre importada; outra tem embutido um modernoso porta-joias automatizado; há também uma no melhor estilo “do lixo ao luxo”, que mistura madeira ordinária com ouro, entre outras tantas. A minha peça predileta, o banquinho Bo (em homenagem a legendária arquiteta Lina Bo Bardi), evoca o “apoio girafa” com toque lúdico levado às últimas consequências, em versão mirim.

Aliás, no catálogo da mostra (por sinal, poderosíssimo, com projeto gráfico e textos bacanérrimos de Gabriel Kogan, o herdeiro do homem), há uma frase de Lina que sintetiza bem o conceito: “o povo faz por necessidade coisas que tem relação com a vida”. Simples assim.

Autor: - Categoria(s): Artes, Design Tags: , , ,
23/11/2009 - 18:37

Blue de mer

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Na garupa do último post, olha só que “inacrê” essa imagem clicada por Giovanna Nucci, que amanhã abre as portas do seu estúdio (na Rua Natingui 1458, Pinheiros) para mostrar a Série Azul, ensaio com 20 imagens do mar feitas no Rio, em Floripa e na República Dominicana. No traço-limite entre o registro fotográfico e a arte, fascinada pelo azul-marinho, Giovanna trabalha com uma abstração quase monocromática, que impressiona pela poética da paisagem e faz o expectador querer mergulhar de cabeça dentro de cada fotografia. “Ainda que eu seja muita crítica, meu olhar é sempre benevolente e tendo a ver o melhor de tudo”, diz. E lembre-se de que as fotos estão em alta no mercado das artes e super in no décor.

Autor: - Categoria(s): Artes Tags: ,
22/09/2009 - 19:10

Japan Pop Show

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Sempre me empolgo quando um grande arquiteto mira a sua prancha para a concepção de produto. Afinal, o que é o design senão a própria arquitetura traçada numa escala reduzida, com todos os valores que pedem as artes humanistas? É o caso da luminária “Mayuhana”, cria do japonês Toyo Ito (o cara que projetou a Serpentine Gallery, em Londres – só isso, tá?).

Como se fosse um novelo de lã (mas com aquela lógica que os nipônicos adoram), ele trança filamentos delgados de fibra de vidro sobre um molde de forma orgânica, que tem esse look meio colmeia, meio casulo, ao mesmo tempo muito modernex. O efeito de iluminação é bacanérrimo, já que a luz filtrada brinca com o jogo de sombras à moda zen, lembrando aquelas luminárias folclóricas de papel-arroz. No Brasil, com exclusividade na Dominici (www.dominici.com.br).

E por falar em olhinhos puxados, começa hoje, no Shopping Iguatemi SP, o Japan Design, feira de produtos de arte, moda e design japoneses organizado pela JETRO – Japan External Trade Organization.  “São Paulo, uma das grandes capitais do mundo, está em sinergia com o evento que já passou por Milão, Paris e Nova York. Esperamos um público seleto, consumidor de arte e design, que prima pela qualidade e sofisticação dos produtos japoneses”, explica Hiroshi Hara, Diretor Vice-Presidente da Jetro. “Moscou e Dubai serão os próximos destinos”, completa.
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Até 4 de outubro, você pode conferir (e comprar) produtos tradicionais de diferentes localidades da terra do sol nascente. De Oita, por exemplo, a Aki utiliza papelão cortado a lazer em suas criações. São formas de animais, manequins e embalagens, recortadas em 3 D.
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Entre tapetes e mobílias fabricadas em junco, de Kyoto vem a técnica milenar do Urushi, pintura em laca que remonta há mais de cinco mil anos, que aqui colore peças de madeira e resina com acabamento brilhante. Na onda da imagem que abre o post, a Taniguchi traz luminárias assinadas pelo premiado designer japonês radicado na Itália, Toshiyuki Kita.  As peças são confeccionadas em papel artesanal washi, com técnica especial que  dispensa as emendas nas cúpulas.

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Autor: - Categoria(s): Arquitetura, Artes, Décor, Design Tags: , ,
26/08/2009 - 12:34

Suave é a noite

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Paisagem de Nice, região costeira da França conhecida como Cote D’Azur ou Riviera Francesa / foto: Reprodução

Parafraseando Fitzgerald (o escritor, não a Ella), vou dar um pulinho ali na Cote D’Azur e já volto – uma work-trip daquelas, com pompa e circunstância de férias. Mando notícias do mundo de lá, na medida do possível – como faço sempre que encontro algo descolex deste nosso universo esteta. Beijão e até a volta!

Autor: - Categoria(s): Arquitetura, Artes, Casa Vogue, Décor, Design Tags: , ,
06/08/2009 - 11:53

A rosa de Hiroshima

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Há exatos 64 invernos, em 6 de agosto de 1945, a humanidade escrevia um dos seus piores capítulos: a Segunda Guerra Mundial. Naquele ano, a ferida viva do Holocausto pulsava na civilização ocidental – levemente suturada pelo suicídio do ditador-anti-cristo Adolf Hitler, em abril –, quando o mundo testemunhou, estarrecido, outra atrocidade: a bomba atômica que os Estados Unidos lançaram sobre  Hiroshima. Ali, mais de 100 mil pessoas foram varridas do mapa sem tempo de entender como e porquê – a maioria delas, camponeses indefesos, já que a cidade foi escolhida justamente por ser alheia aos armamentos e absolutamente vulnerável, recolhida entre os vales. Três dias mais tarde, um novo bombardeio em outro alvo interiorano, Nagasaki, ceifou a vida de mais de 70 mil inocentes, confirmando a eficiência demoníaca da tecnologia bélica detonada pelo presidente americano em exercício, Harry S. Truman. Na ocasião, o físico J. Robert Oppenheimer, que comandou a equipe de cientistas e engenheiros responsáveis pelo artefato, declarou: “Eu me tornei a Morte, um destruidor de mundos”. Mesmo arrependido, sua conta foi entregue: morreu de câncer 3 anos depois dos atentados.

Os EUA venceram. E Hiroshima e Nagasaki ainda sentem na pele os traumas do ataque (literalmente, já que a radiotividade nuclear imprimiu rastros que atravessaram as décadas).

O Japão, hoje uma das nações mais pacifistas do mundo, também se tornou a segunda maior potência econômica do globo. O planeta inteiro olha para ele.

Muito além da cultura zen, tecnologia de ponta, artes marciais, inspiração purista, jardins simétricos e filosofias milenares, origamis e sushis, macarrões instantâneos e karaokês, a terra do sol nascente exportou para o mundo talentos fantásticos na arquitetura, no design e nas artes. No dia em que o país lembra um dos seus momentos mais dramáticos, fazemos aqui um registro, em forma, cor e volume, de alguns herois da estética nipônica para a casa no século 20.


Croqui do arquiteto Tadao Ando para o Centro de Arte Contemporânea de Venice


Gaveterio relovucionário que o designer Shiro Kuramata desenhou para a Cappellini, nos anos 90.


Sofá, mesa de centro e luminária do escultor, arquiteto e designer  Isamu Noguchi, produzidas entre as décadas de 60 e 70


Pintura coloridíssima de Takashi Murakami, um dos responsáveis pelo status de arte  dos toys, referências de rua e HQs / Cadeiras de madeira e papel reciclado de Shigeru Ban, do final da década de 90

Saideira com uma das canções mais cults da MPB, imortalizada pelo divo Ney Matogrosso, lá nos anais do Secos e Molhados:

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31/07/2009 - 14:52

Guerra dos Mundos

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Não agüento mais a palavra sustentabilidade – o verbete é tão exaustivamente aplicado, que quem realmente leva a coisa a sério chega a ficar com as bochechas mais coradas do que uma maçã do amor ao se deparar com tanto emprego indevido. Sabe aquela coisa de vergonha alheia? Pois é: eu tenho. Venhamos e convenhamos que responsabilidade ambiental já não era mais uma questão de opção, desde que eu nasci, lá na segunda metade da década de 70. Imagine agora, mais de 30 anos depois, com a camada de ozônio pedindo arrego, as matas cada vez mais anorexas, as águas minguando e a bicharada virando excentricidade em museu… Quem não é sustentável deveria ser banido do mercado – e do planeta. Ponto. A conversa aí em cima introduz uma tendência que não é nenhuma novidade no design, mas que vive dias de revival neste terceiro milênio de “verdades inconvenientes” (alguém aí viu o filme do Al Gore?), quando quase todas as possibilidades de forma e conteúdo foram drenadas do imaginário e os recursos se esgotam a passos largos: a biomímica ou biomimetismo (imitação das formas e funções da natureza).

No site do SPFW, o über-editor, über-antenado e über-amado André Rodrigues fez uma aposta no trabalho do designer coreano Chul An Kwak, autor dessas mesas que simulam os tentáculos de um polvo (embora o criador afirme que a inspiração real são os cavalos de corrida). A ideia de ter um móvel de look alienígena, que parece que vai sair correndo atrás da gente a qualquer momento, é um tanto quanto aflitiva. Mas a peça tem lá sua genialidade, ninguém pode negar. O fato é que Chul An Kwak tá ganhando a cena além das fronteiras de sua Seoul, caindo como um boné no gosto, digamos, meio extravagante, dos rappers. Sabe quem é o maior cliente do cara? Kanye West.


Lulalá: parece um polvo, mas não é.  As mesas do designer coreano Chul An Kwak usa tentáculos de madeira nos pés

Provavelmente o Kanye não saiba que bem antes do coreano, no Brasil, logo ali nas Alagoas, um artesão conhecido como Seu Fernando já juntava troncos desmatados, raízes trançadas, tocos retorcidos, galhos secos, madeiras desprezadas e que tais, para esculpir mesas, cadeiras e bancos de efeito mimético (bloguei a história dele há alguns meses).


Resto de toco: banquinho mimético do Seu Fernando, artesão lendário da Ilha do Ferro, falecido recentemente

Talvez pelo charme brejeiro da nossa geografia, detentora de uma das naturezas mais exuberantes do mundo, a tropicália combine tanto com a estética alien-brüt (mais natureba do que marciana, no caso dos tupiniquins). Seja nas culturas caiçaras, caipiras ou urbanas desses brasis, a biomímica sempre teve espaço por aqui, com seus inúmeros sotaques. O banco assinado pela paisagista Renata Tilli (nu e cru, feito por uma artista que não é designer, mas que lida com plantas) e a luminária da Puntoluce (simbiose entre aspereza orgânica e luxo refinado) são dois exemplos categóricos.


Natureba em duas versões nada marcianas: o abajur de tronco rústico encontra a finesse da cúpula contemporânea by Puntoluce; a cadeira de galhos secos é criação da paisagista Renata Tilli

Clássicos da mesma escola (dissecados muitas vezes neste blog), Hugo França e Pedro Petry alimentam uma produção que se apropria dos resíduos florestais desprezados pelo homem, interferindo minimamente neles.  Julia Krantz (uma das minhas prediletas) acompanha a toada, com seu belo traço em busca do efeito in natura.


Brasileirinho: bowls de Pedro Petry, banco de Hugo França (no alto) e namoradeira de Julia Krantz

Em tempos de globalização imediata, o estilo se expande sem limites geográficos. Os europeus (principalmente os ingleses e franceses), em todas as épocas, se apropriaram da natureza para enfeitar sua mobília, a exemplo da escrivaninha garimpada por Juliana Benfatti, em Londres. Do mesmo fog, o sangue-novo Peter Marigold, formado pelo Royal College of Art, ataca com tudo no handmade, com o máximo cuidado para manter a madeira o mais natural possível, lidando com formas assimétricas e  tirando partido da irregularidade como ponto alto, caso da estante Split.


London, London: escrivaninha inglesa garimpada por Juliana Benfatti e estante irregular do designer londrino Peter Marigold, com galhos secos

O espanhol Nacho Carbonell, outro nome quente no panorama atual, obcecado pela luta contra o consumismo e desperdício desenfreados, só constrói suas invenções com material eco-friendly. E leva o conceito às últimas consequências, produzindo obras que chegam a incomodar, de tão uterinas: “Vejo as minhas criações como organismos vivos, capazes de surpreender com seu comportamento, que interage com o ser humano”, contou em entrevista à Taissa Buesco, para Casa Vogue. Com tempero surrealista, uma de suas mobílias mais polêmicas parece um ninho de joão-de-barro ou coisa que o valha. E assusta os incautos!


Volta ao ninho: criações do espanhol Nacho Carbonell. As cadeiras parecem o ninho do joão-de-barro, enquanto o sofá se enche de ar quando a gente senta, levantando o galho e dando a sensação de companhia

Na outra ponta da corda, com uma matéria bem mais obediente ao manuseio, a argila, o norte-americano Peter Lane faz vasos, luminárias, móveis e outros objetos  inspirados em lavas vulcânicas, colmeias de abelha, barro rachado, formações glaciais, frutas, flores, bichos. Com sua  técnica de queima guardada a sete chaves, o ceramista explora esse efeito petrificado, que lembra esculturas nas rochas.


Terra do nunca: mimetismo petrificado nas cerâmicas de Peter Lane

Sintética na matéria, mas absolutamente mimética no look, a poltrona Anêmona, uma das peças mais manjadas do portfólio dos big brothers Campana, causaria espanto aos americanos que caíram no maior trote da história, armado por Orson Welles naquela transmissão de rádio em que ele alertava o mundo sobre uma invasão de extra-terrestres. Com materiais quase ordinários, repaginados em shape sci- fi glamouroso, a cadeira também parece prestes a nos engolir. Mais mimético, impossível.


Cloverfield: com seu jeito simpático de monstrengo marinho, a poltrona Anêmona, dos big brothers Campana, faz a mímese no shape, com material sintético

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26/06/2009 - 18:13

Epitáfio

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Acima, Michael Jackson em representação do artista Jeff Koons / foto: Divulgação

Nenhuma polêmica manchará o impacto histórico de sua música”, disse hoje o reverendo Al Sharpton, líder da comunidade negra dos EUA e maior ativista das causas raciais no mundo. Ainda assim, há um exército sensacionalista na imprensa proliferando mais a suposta-aversão do Rei do Pop à própria etnia (entre outras bizarrices, sejam elas legítimas ou não) do que o seu legado (este sim, absolutamente autêntico).

Quem me conhece (um pouquinho de nada, que seja) sabe que, por predileção, as minhas naus sonoras navegam quase que exclusivamente pelo grande rio da música negra, em seus mais diversos afluentes: da sua gênese, no blues, no jazz, no gospel e no soul, à massificação sintetizada do pop e do r&b (sem nenhum acanhamento de confessar). Minha matriz cultural é a Motown e tudo o que saiu de lá, de alguma forma, contribuiu para a minha formação – como gente, como jornalista ou como o músico que sonhei ser um dia. Michael Jackson, o filho pródigo da lendária gravadora black, era um dos meus heróis – assim como o foi para boa parte dos adolescentes que cresceram nos anos 80-90 e acompanharam, através dele, o surto camaleônico da cultura pop, o nascimento da MTV, a evolução do videoclip, o play da era digital, o tsunami da globalização e o embrião da internet.

Quando nasci, Michael Jackson já era um astro cultuado pelo mundo – incluindo as minhas tias, então adolescentes. Lembro quando o clipe de “Thriller” foi exibido pelo Fantástico, e do impacto que aquilo causou nas pessoas. Eu sequer sabia ler, mas o grafismo das letras, escorrendo em sangue, ficou tatuado na minha memória.

Quase trinta anos depois, o mundo ainda repercute o mérito do álbum homônimo como o melhor – e mais vendido – da história. A bolacha, impecável do começo ao fim, soa moderna até hoje, na versão iPod – e, por mais que alguém torça o nariz, não há argumentos contra os números. Mas as gravações que Mister Moonwalker fez entre a infância e a adolescência, à frente dos Jacksons Five ou nas primeiras incursões solo, cantando clássicos como “I Want you Back”, “Ben” ou “Music and Me”, estão entre os registros mais catárticos do seu talento – a voz daquela criança, com uma afinação e candura sem fim, é uma das coisas mais belas que já ouvi.

Numa representação feita por artista anônimo, Michael Jackson empresta seus ícones visuais para celebridades que, acreditem, ficaram muito aquém dele no quesito fama / imagem: Reprodução

Em 93, a turnê Dangerous esteve no Brasil e a Lilian, minha tia predileta, me levou ao show. Uma experiência e tanto, mesmo considerando os momentos de playback e os longos intervalos entre um número e outro. Eram outros tempos para o divo, que depois do marco de “Thriller” (jamais superado por nenhum outro artista, incluindo o próprio), recebera uma fatura alta demais: viveu loopings pessoais, escancarou seus medos privados em lugares públicos, chocou a opinião e bateu records menos honrosos, como o de celebridade mais estampada nos tablóides e revistas B – mesmo quando absolvido das acusações de pedofilia e de ter comprovado a vitiligo como causa do seu “embranquecimento”.

Paralelamente aos escândalos (voluntários ou não), Michael colecionou arte e antiguidades, girafas, elefantes, rinocerontes e traquitanas de gente morta (incluindo a ossada do “homem-paquiderme”). O link com o blog poderia ser justificado por isso: Michael amava decoração e consumia-a compulsivamente. Quem assistiu ao documentário mambembe (e devastador) do jornalista inglês Martin Bashir, há uns quatro anos, deve lembrar do cantor deixando milhões de euros num antiquário em Londres (sem falar no leilão de seus móveis e objetos).

Acima, alguns objetos decorativos de Michael que foram leiloados no começo de 2009 / foto: Reprodução

Mas o link é outro. Longe da Terra do Nunca, Michael Jackson, a lenda, é fundamental para a cultura pop, incluindo no tocante ao universo plástico. Enquanto abriu a senda para todos os artistas (brancos ou negros) que vieram depois dele, sua imagem virou mote de apropriação para pintores e escultores como Jeff Koons, inspirou estilistas, designers, cenografias, produções cinematográficas. Há quem vá ainda mais longe, afirmando que, se os Estados Unidos da América hoje têm um presidente negro, isso se deve também, à vereda que Jackson ajudou a pavimentar. Exagero ou não, o mundo hoje está com um nó na garganta. André e eu, que sempre curtimos o cara – e chegamos a cogitar um périplo londrino para assistir de camarote a sua volta triunfal -, estamos sentindo um vácuo sem fim (se você está lendo isso, provavelmente, também se importa). O Rei do Pop foi caminhar na lua, como Peter Pan.

No ar, uma prece: que os anjos digam amém à profecia do reverendo Al Sharpton. Abaixo, o vídeo de “Music and Me“, numa das performances vocais mais emocionantes de todos os tempos:

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